É isso que um contratado é, um
mero mercenário, um estrangeiro (mal) pago. A guarnição local olha-te com
desconfiança e os veteranos mal te falam, na rua a maioria até finge que não te
conhece. Fazes o trabalho que os outros recusaram, nos horários que mais
ninguém quer.
E com quem te dás? Com os outros
mercenários, os que partilham o teu destino, os que estão nas trincheiras, nas
turmas com siglas que a guarnição local desconhece o significado, expecto claro
os que têm postos de comando, ou os que foram castigados e cumprem pena ao teu
lado.
Como não somos mercenários?
Trabalhar connosco é o castigo, o degredo!
Os alunos ou te temem ou não te
respeitam, são como qualquer inimigo, e tratamo-los como os mercenários que
somos. Nunca muito bem, ou seremos obsoletos, sem inimigo para que queres um
mercenário, davam o horário à guarnição. Mas também não demasiado mal, um
mercenário trabalha por dinheiro e as perdas em termos de cabelos brancos e desgaste
são enormes num confronto direto. Guerras de desgaste, de atrito, são para a
guarnição, para nós são as escaramuças diárias sem vitórias nem derrotas, não
somos convocados para as grandes batalhas.
Porque seriamos? Iremos,
eventualmente embora. Para quê decorar, sequer, os nossos nomes?
Claro está que, nas paradas e
oportunidades fotográficas, lá estamos na primeira fila. Os jovens, os
dinâmicos, as boas, as vistosas, competentes ou incompetentes, lá estamos
todos. Nada como mostrar a todos que os nossos mercenários são melhores que os
dos outros.
Ora ai entra o verdadeiro
problema. Mercenários novos e veteranos, já gastos ou acabadinhos de chegar às
trincheiras, todos no mesmo saco. Os santos e os filhos da puta, todos juntos,
todos a trabalhar para o mesmo objetivo.
Sobreviver.
E tal como os verdadeiros
mercenários, alguns juntam-se em bares nas licenças, a beber o ordenado e a
encontrar nos braços de uma igualmente contratada um simulacro de relação.
Outros gastam-se em batalhas desportivas, jogadas entre si ou vistas em cafés.
Outros ainda tentam integrar-se no local onde estão.
Muito bem, pensa quem lê, mas
pensa mal. Acha por acaso que a guarnição local permite realmente algo assim?
Talvez para quem repete
contractos no mesmo local vários anos haja essas vantagens. Claro que há, mas
só se não actuar como mercenário(a). Se mantiver um distanciamento com os que
são como ele ou ela, os da casa poderão aceitá-la muito melhor. Se fores um
pulha a guarnição local tolera-te pela tua utilidade, mas os outros mercenários
não te perdoam a traição.
Ora, existem alternativas.
Podes sempre voltar para casa e
desistir.
Mas foda-se, ao fim de alguns
anos, vais fazer o quê? Só sabes ser mercenário. Vê-se isso nos documentários
sobre a guerra, os que voltam a casa ao fim de alguns anos alistam-se
novamente. E sabendo que vão perder, lá vão eles para as trincheiras novamente.
Alegremente até, o que é impressionante. Ao menos os outros mercenários sabem
ao que vais, o que te faz mexer e levantar de manhã.
Não é o espírito de missão, ou a
boa imagem da escola. É o ordenado, e a secreta esperança, quase escondida de
ti mesmo, que um dia passes a efetivo.