segunda-feira, 19 de março de 2012

O Mercenário I


É isso que um contratado é, um mero mercenário, um estrangeiro (mal) pago. A guarnição local olha-te com desconfiança e os veteranos mal te falam, na rua a maioria até finge que não te conhece. Fazes o trabalho que os outros recusaram, nos horários que mais ninguém quer.
E com quem te dás? Com os outros mercenários, os que partilham o teu destino, os que estão nas trincheiras, nas turmas com siglas que a guarnição local desconhece o significado, expecto claro os que têm postos de comando, ou os que foram castigados e cumprem pena ao teu lado.
Como não somos mercenários? Trabalhar connosco é o castigo, o degredo!
Os alunos ou te temem ou não te respeitam, são como qualquer inimigo, e tratamo-los como os mercenários que somos. Nunca muito bem, ou seremos obsoletos, sem inimigo para que queres um mercenário, davam o horário à guarnição. Mas também não demasiado mal, um mercenário trabalha por dinheiro e as perdas em termos de cabelos brancos e desgaste são enormes num confronto direto. Guerras de desgaste, de atrito, são para a guarnição, para nós são as escaramuças diárias sem vitórias nem derrotas, não somos convocados para as grandes batalhas.
Porque seriamos? Iremos, eventualmente embora. Para quê decorar, sequer, os nossos nomes?
Claro está que, nas paradas e oportunidades fotográficas, lá estamos na primeira fila. Os jovens, os dinâmicos, as boas, as vistosas, competentes ou incompetentes, lá estamos todos. Nada como mostrar a todos que os nossos mercenários são melhores que os dos outros.
Ora ai entra o verdadeiro problema. Mercenários novos e veteranos, já gastos ou acabadinhos de chegar às trincheiras, todos no mesmo saco. Os santos e os filhos da puta, todos juntos, todos a trabalhar para o mesmo objetivo. 
Sobreviver.
E tal como os verdadeiros mercenários, alguns juntam-se em bares nas licenças, a beber o ordenado e a encontrar nos braços de uma igualmente contratada um simulacro de relação. Outros gastam-se em batalhas desportivas, jogadas entre si ou vistas em cafés. Outros ainda tentam integrar-se no local onde estão.
Muito bem, pensa quem lê, mas pensa mal. Acha por acaso que a guarnição local permite realmente algo assim?
Talvez para quem repete contractos no mesmo local vários anos haja essas vantagens. Claro que há, mas só se não actuar como mercenário(a). Se mantiver um distanciamento com os que são como ele ou ela, os da casa poderão aceitá-la muito melhor. Se fores um pulha a guarnição local tolera-te pela tua utilidade, mas os outros mercenários não te perdoam a traição.
Ora, existem alternativas.
Podes sempre voltar para casa e desistir.
Mas foda-se, ao fim de alguns anos, vais fazer o quê? Só sabes ser mercenário. Vê-se isso nos documentários sobre a guerra, os que voltam a casa ao fim de alguns anos alistam-se novamente. E sabendo que vão perder, lá vão eles para as trincheiras novamente. Alegremente até, o que é impressionante. Ao menos os outros mercenários sabem ao que vais, o que te faz mexer e levantar de manhã.
Não é o espírito de missão, ou a boa imagem da escola. É o ordenado, e a secreta esperança, quase escondida de ti mesmo, que um dia passes a efetivo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Bom, tenho de dar o braço a torcer ao blogger. Muito bem, aplauso geral.
Em cinco ou seis anos que uso o blogger, nunca me tinha feito um erro que fosse, nem sequer o ameaço de um erro.
Mas esta sexta, estava eu a escrever um texto extremamente...vá, posto de um modo simpático, "crítico", e ele breca.
Lá vai texto, lá vai rascunho, tudo por água abaixo.
E ainda bem.
O texto era um bocado venenoso, e ia contra os meus princípios pessoais, pois sempre preferi mandar as bocas pessoalmente, e não o faço por interposta pessoa, muito menos por via digital.
Por isso, obrigado blogger, guardião dos meus princípios.
Só é pena que o blogger não vá às minhas reuniões de departamento, já agora impedia-me de meter os pés pela boca.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Ora, a diminuição da qualidade de trabalho vai, aparentemente, passar a ser motivo de despedimento por justa causa. Muitas pessoas pensarão, pois claro, muito bem, coitadinhos dos patrões, que tinham que aturar estoicamente o facto de os seus empregados serem, sei lá, humanos. Nunca mais poderemos ter um dia mau, ou mesmo meio bom. Morreu alguém? As nossas condolências, temos muita pena, e vamos mandar um ramo de flores com a sua carta de despedimento.
Parece-me bem.
Eu próprio avalio os meus alunos com base no seu desempenho.
Agora pergunto, se eu avaliar os meus alunos do mesmo modo que sou avaliado, será que os pais se iam chatear com as quotas?
Ou melhor, se sempre que um aluno tiver uma aula piorzinha, ou vier mais ou menos acelerado, será que o posso chumbar e obrigar a mudar de turma, quiçá de escola?
Ou mesmo recambiar o dito de turma pois o seu fraco desempenho está a diminuir o meu nível de produtividade?
Isso sim, ia ser espetacular.
Ou não pá, ou não.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

É um sentimento muito estranho, sentir que somos os únicos dispostos a fazer algo (mesmo que imprudente, improdutivo e provavelmente estúpido) pela nossa profissão. Nos vários sítios onde estive antes, havia pessoas que não me podiam nem ver, outras que mal sabiam quem eu era, e vice versa, mas porra, sabíamos que era preciso lutar pelos nossos direitos, por qualquer coisa, às vezes só mesmo lutar por lutar, independentemente da cor política.
Juro que ás vezes pareço um daqueles soldados que depois de uns anos na frente de batalha é mandado secar para a guarnição, e quando fala, os outros o olham como se fosse louco, ou pior (aqui), revolucionário.
Um cabrão dum euro por cada vez que me disseram "o colega não percebe", ou "o colega não é de cá", ou pior "de certeza que as coisas não são bem como o colega está a dizer".
Estava a falar no café a falar com dois colegas, um que chegou à dois anos e outro à um, e chegámos à conclusão que parece que chegámos do futuro.  Não do futuro distante, mas de apenas uns dois anos à frente.
Poucas coisas me chateiam mais que a apatia.
E vou-me calar por aqui, que quando me chateio embalo e começo a escrever (ainda mais) alarvidades.